segunda-feira, 11 de junho de 2018


Sobre Simone de Beauvoir: iniciando a travessia


Durante muito tempo as diferenças de gênero eram entendidas como biologicamente determinadas, em que o saber médico passa a definir as mulheres como seres biológicos se moralmente diferentes e inferiores em relação aos homens, e incapazes de participarem ativamente da esfera pública (RAGO, 2015, p. 265). 
Muito difundidos em nosso meio, os discursos de senso comum, por exemplo, homem não chora, as mulheres são frágeis e sensíveis, etc, funcionam como resposta para possíveis indagações acerca da veracidade de padrões pré-estabelecidos, em que a condição feminina era vista como uma barreira para o trabalho intelectual. Engessando os comportamentos, limitando a liberdade com base em uma legitimidade que não se adequa ao racional, como a resposta no natural. Neste sentido, Simone de Beauvoir defendeu que:

Ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam se de feminino. (Beauvoir 1967: 9)

Assim, para Simone de Beauvoir, o tornar-se mulher é ali proposto nas experiências vividas por homens e mulheres nas dimensões do indivíduo e da vida social que o efetivam, que o alçam à condição de real, isto é, seja nas instituições formadoras, seja nas diversas possibilidades de vivência presente, mulheres e homens forjam-se em sua identidade individual na relação que a sua liberdade estabelece com a liberdade daqueles com quem convivem. 
Pode-se dizer que toda a investigação de Beauvoir sobre a mulher descreverá o drama dos movimentos de interrogação, reflexão e superação desta situação de estar posta como um indivíduo, se não derivado ou até mesmo relativizado em face de outro indivíduo que se tornou historicamente soberano absoluto de seu gênero. 
Nesse passo, Beauvoir atribui grande importância ao trabalho como meio de conquista da autonomia para as mulheres em especial, e, portanto, a condição de sujeito da própria história seria determinada pelo acesso das mulheres à educação e ao trabalho. (DALMÁS, MÉNDEZ, 2015). Assim, constata-se que a categoria de gênero engloba fatores históricos, sociais e culturais, bem como de poder, todos envolvidos na construção dos perfis, papéis e identidades ‘masculina’ e ‘feminina’. Longe de serem neutras, as relações de gênero, que se manifestam de maneira velada ou explícita, possuem relações de poder inerentes a elas. Eis, portanto, breve relato sobre a contribuição de Beauvoir sobre mulheres.

REFERÊNCIAS


BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 2. A experiência vivida. Trad. de Sérgio Milliet. 1.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
DALMÁS, Giovana; MÉNDEZ, Natália Pietra. Beauvoir, Simone. Dicionário Crítico de gênero/ Organizadores: Ana Maria Colling, Losandro Antonio Tedeschi. Dourados, MS: Ed. UFGD, 2015, pp.63-69.
RAGO, Margareth. Foucault e as mulheres. In: Dicionário Crítico de gênero/ Organizadores: Ana Maria Colling, Losandro Antonio Tedeschi. Dourados, MS: Ed. UFGD, 2015, pp.264-268.

2 comentários:

  1. Parabéns pela criação do seu blog Gabriela!
    Muito interessante abordar a posição feminina em ambiente virtual em que todos podem ler e opinar. Parabéns pela iniciativa!
    Sucesso!

    Abraços

    Katiane

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  2. Olá, Gabriela.
    A questão levantada ainda gera muitos debates.
    Muitos se colocam num lado ou noutro de modo tão radical que não conseguem encontrar um ponto de equilíbrio.
    As funções sociais do macho e da fêmea são construídas, desconstruídas e reconstruídas ao longo da história, num processo dialético de socialização e conflito, fazendo surgir diferentes representações e entendimento das funções do macho e da fêmea.
    Precisa-se ter humildade para reconhecer essas diferenças e aceitar as transformações dinâmicas que acontecem ao longo da história.

    Sucesso em seu blog

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