Sobre Simone de Beauvoir: iniciando a travessia
Durante muito tempo as
diferenças de gênero eram entendidas como biologicamente determinadas, em que o
saber médico passa a definir as mulheres como seres biológicos se moralmente
diferentes e inferiores em relação aos homens, e incapazes de participarem
ativamente da esfera pública (RAGO, 2015, p. 265).
Muito difundidos em nosso
meio, os discursos de senso comum, por exemplo, homem não chora, as mulheres
são frágeis e sensíveis, etc, funcionam como resposta para possíveis
indagações acerca da veracidade de padrões pré-estabelecidos, em que a condição
feminina era vista como uma barreira para o trabalho intelectual. Engessando os
comportamentos, limitando a liberdade com base em uma legitimidade que não se
adequa ao racional, como a resposta no natural.
Neste sentido, Simone de Beauvoir defendeu que:
Ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Nenhum destino
biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio
da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto
intermediário entre o macho e o castrado que qualificam se de feminino.
(Beauvoir 1967: 9)
Assim, para Simone de Beauvoir, o
tornar-se mulher é ali proposto nas experiências vividas por homens e mulheres
nas dimensões do indivíduo e da vida social que o efetivam, que o alçam à
condição de real, isto é, seja nas instituições formadoras, seja nas diversas
possibilidades de vivência presente, mulheres e homens forjam-se em sua identidade
individual na relação que a sua liberdade estabelece com a liberdade daqueles
com quem convivem.
Pode-se dizer que toda a investigação de Beauvoir sobre a
mulher descreverá o drama dos movimentos de interrogação, reflexão e superação
desta situação de estar posta como um indivíduo, se não derivado ou até mesmo
relativizado em face de outro indivíduo que se tornou historicamente soberano
absoluto de seu gênero.
Nesse passo, Beauvoir atribui grande importância ao
trabalho como meio de conquista da autonomia para as mulheres em especial, e,
portanto, a condição de sujeito da própria história seria determinada pelo
acesso das mulheres à educação e ao trabalho. (DALMÁS, MÉNDEZ, 2015). Assim,
constata-se que a categoria de gênero engloba fatores históricos, sociais
e culturais, bem como de poder, todos envolvidos na construção dos perfis,
papéis e identidades ‘masculina’ e ‘feminina’. Longe de serem neutras, as
relações de gênero, que se manifestam de maneira velada ou explícita, possuem
relações de poder inerentes a elas. Eis, portanto, breve relato sobre a contribuição de Beauvoir sobre mulheres.
REFERÊNCIAS
BEAUVOIR, Simone de. O segundo
sexo. 2. A experiência vivida.
Trad. de Sérgio Milliet. 1.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
DALMÁS, Giovana; MÉNDEZ, Natália
Pietra. Beauvoir, Simone. Dicionário
Crítico de gênero/ Organizadores: Ana Maria Colling, Losandro Antonio Tedeschi.
Dourados, MS: Ed. UFGD, 2015, pp.63-69.
RAGO,
Margareth. Foucault e as mulheres.
In: Dicionário Crítico de gênero/ Organizadores: Ana Maria Colling, Losandro
Antonio Tedeschi. Dourados, MS: Ed. UFGD, 2015, pp.264-268.